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Purificação

dema


Quantas vezes quis despir-me do passado
pra peitar a vida sem seguir lições,
ver a realidade qual um pronto dado,
jogar na lixeira velhas ilusões,
dispor-me ao futuro nude dos meus medos,
viver relações sem o menor segredo.

Quantas vezes quis ser tão somente eu,
limpo dos vestígios que o tempo larga
ou que a própria vida fez, depois nos deu;
poder escolher, posto que escolha amarga,
mas não afetada por falsos desejos
e checar se a sorte me sorri com beijos.

Desejara ter nas veias sangue puro,
nada de ancestral, nem de colateral,
inda que sonhado, nada de futuro.
Queria saber quem sou eu na real,
se me encontro estreme, se estou maculado,
se o bem trago em mim ou se sou malvado.

Quem me dera, livre, a minha alma fosse,
sem qualquer liame com teor de posse,
sem menor lembrança de um amor gostoso,
de um amor presente ou muito desejado,
quiçá um pedacinho do Deus poderoso,
pra vagar no espaço longe do pecado;

ser eu qual a nuvem que leve passeia,
ou como as ondas que se quebram n’areia,
talvez água limpa descendo, em cascata,
a colina verde que ninguém desmata;
vestir-me de azul conforme o céu da tarde,
trocar meus janeiros pela mocidade.

Quem sabe, portanto, a pureza retorne,
a maldade morra tal se por encanto
e esse mundo torpe, agora mui disforme,
vire o paraíso que imagino e canto.
Ainda que em mim mesmo haja só vontade,
já vislumbro a imagem da felicidade.

 

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