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Cenario posto

dema

Trinar de pardais em pura alegria
(não lhes veda o voo essa água-névoa,
descendo fresca, porém, não tão fria),
chuva mansa nina velhas lembranças,
doces, amargas e pequenas mágoas;
mal ergue pálpebra, o cão indolente,
se zune a mosca assim intermitente.

Após certo tempo, a sorrir desato
o cenário posto a meu desacato.
A lerdice induz-me a deitar na cama,
contudo, resisto, em minh’alma, há trama.

O espírito d’ora, em tom natalino,
ampara a imagem de Jesus-menino;
na noite breve, sob luz de lustres,
ou de velas curtas, em casa pobre,
injeta n’almas sentimento nobre,
a fazer de humanos anjos ilustres.

Mas, dentro de mim, um ódio cruel
cospe navalhas em duras batalhas
aos males de agora, em terra e no céu:
contra indiferença, incansáveis justas,
em regra,  travadas às próprias custas,
contra inveja sacana, árdua peleja,
contra raça humana, pois, autofágica,
o meu todo é a arma que relampeja,
se bem já vislumbre derrota trágica.

Célere, cobre-me a fina garoa,
desfaz-se o cismar (ocorrido à toa?),
se em vez de adulto, me sentir criança,
imploro consolo, além da esperança.

 

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