top1

Conjecturas
dema

Que haverá por detrás desse azul de céu e mar?
Diz-me coisas o marulhar das ondas que vêm aqui bater.
Espumam, elas, a cerveja que o germano ingere
e a braveza dos homens-bombas que escondem suas mulheres.
O verde-orla soma-se ao céu e mar no horizonte,
concretando a espera humana de fundir-se ao infinito.

Em socorro aos gritos das crianças nuas, famintas,
pululando no continente que mutila,
anjos vigilantes transitam pelas nuvens.
Conduzem-nas ao céu e as depositam num cantinho fofo.
Dão-lhes de comer e as põem a dormir.

Quando em vez, um iate de risos e mulheres despidas corta as águas,
tocando o céu sobre as ondas, qual nave de celestiais orgias.

Hoje não há camelô, não há boia-fria.
Algumas aves circulam contra e a favor da brisa que dobra as palmeiras.

No meu cismar, imagino as bilhões de mensagens ascendendo aos satélites
e descendo além-mar,
tais as que de lá nos chegam sem cansaço algum.
Penso as incontáveis relações em que interagem os viventes,
se Deus tudo vê.
E de lá dessa terra, desse mar, desse céu, quem está?
Alguém nos aguarda ou quer nos alcançar?
Para além do sol que nos dá o colorido, quem a nos ver?

A galera uiva e aplaude o gol que estufa as redes.
Lá fora o flanelinha finge que vigia o carro em troca do jantar.

Os homens de colarinho álveo tramam a falcatrua pra dobrar o povo,
defendem interesses, penduram-se no poder.

As prostitutas perdem a vez para as meninas de família.
De sobreviver nem o corpo lhes é mais garantia.
O jeito é aventurar-se aos biscates cotidianos.

Jovens-adolescentes se abatem pelas bocas de fumo de seus donos,
enquanto os adictos fazem de seus lares esperanças vazias.

No tempo em que Netuno se agita, Zeus dorme.

Dezenas de ministérios consomem o tesouro abarrotado de tributos,
cujas migalhas chovidas na periferia garantem os votos futuros.

Lá vou eu de novo me perdendo em conjecturas,
embrenhando-me nesse terra-mar-e-céu à caça de sentido.
Quando me dou conta, já estou no infinito.

direitos autorais de demasilva